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Silva Lusitana

versão impressa ISSN 0870-6352

Silva Lus. vol.20 no.1-2 Lisboa dez. 2012

 

Notas do Herbário Florestal do INIAV (LISFA): Fasc. XXXIV - 2

 

Três neófitos novos para a Flora de Portugal

 

Paulo Alves *, Carlos Aguiar **

* Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) paulo.alves@fc.up.pt

** Centro de Investigação de Montanha (CIMO), Escola Superior Agrária de Bragança cfaguiar@ipb.pt

 

Epilobium brachycarpum C. Presl.

O Epilobium brachycarpum é originário da Argentina e do W da América do Norte (G. Nieto Feliner in Castroviejo & al. (eds), Flora Iberica VIII: 129). Foi detetado pela primeira vez no Continente Europeu na região de Madrid, no início da década de 1980 (J. Izco, Candollea 38: 309-315, 1983). Na Europa, além da Espanha, desde uma primeira citação datada de 1990, tem sido relatada a sua presença em vários departamentos franceses (D. Mercier, Le Jouet du Vert 12: 3, 2003; J.L. Lamaison & R. Deschâtres, Le Monde des Plantes 98: 19-20, 2003). Recentemente, encontramos este neófito em taludes viários, num mosaico ruderalizado de giestais de Genista florida (classe Cytisetea scopario-striatae) e arrelvados de Agrostis castellana e Dactylis hispanica (classe Stipo-Agrostietea castellanae), nos arrabaldes da Cidade de Bragança. A presença do E. brachycarpum em Portugal não constitui uma surpresa maior, uma vez que a sua distribuição na Península Ibérica se estendia pelo C e CW de Espanha (G. Nieto Feliner, op. cit.). Trata-se de uma espécie de fácil identificação: alguns indivíduos atingem dimensões significativas (mais de 1,2 m), as folhas são alternas, lineares, com dentículos marginais; as flores, vistosas, apresentam pétalas lilacíneas bilobadas até 9 mm de comprimento, organizadas em amplas panículas terminais. Ao contrário da maioria dos Epilobium portugueses, o E. brachycarpum ocupa solos ruderalizados sujeitos a uma forte secura estival; não surpreenderia que viesse a apresentar, em Portugal Continental, um comportamento invasor ao longo dos sistemas rodoviário e ferroviário.

BRAGANÇA: Sé, próximo do Parque Florestal, talude viário, mosaico de giestal e arrelvado vivaz, ca. 680 m alt., 29TPG83, C. Aguiar 4947, 8-X-2007. Herbário Esc. Sup. Agr. Bragança 7443.

 

Gamochaeta simplicicaulis(Willdenow ex Sprengel) Cabrera

O género Gamochaeta foi objecto de revisões taxonómicas, nomenclaturais e corológicas significativas desde a publicação do volume IV da Flora Europaea, quando J. Holub reconheceu dois taxa do género naturalizados no continente europeu: a G. subfalcata (Cabrera) Cabrera e a G. purpurea (L.) Cabrera (J. Holub in Tutin et al. (eds.), Flora Europaea IV: 127, 1976). Guy L. Nesom clarificou o conceito de Gamochaeta e delimitou os seus limites genéricos para Flora da América do Norte (G.L. Nesom, Sida 21: 717-741, 2004). Maria da Luz Rocha Afonso (Rocha Afonso, Bol. Soc. Brot., Sér. 2, 57: 113-127, 1984) investigou a presença deste género endémico do Novo Mundo em Portugal aquando da preparação do segundo volume da Nova Flora de Portugal Continental (Franco, 1984). Durante um estudo dos padrões de riqueza florística de exóticas com caracter invasor na zona do Alto Minho foi por nós detectada a presença de um novo taxon de Gamochaeta em Portugal, a G. simplicicaulis (Willdenow ex Sprengel) Cabrera. Esta espécie distingue-se de G. coarctata (Willd.) Kerg. (sinónimo de G. spicata (Lam.) Cabr. nom. illegit.) pela sua maior dimensão, caule geralmente não ramificado, ausência de folhas basais na floração e presença de alguns pelos na página superior das folhas que, por sua vez, são crenulado-onduladas. A G. simplicaulis ocupa habitats semelhantes a G. coarctata, tais como áreas pisoteadas sujeitas a encharcamento temporário e margens de cursos de água.

MAIA: Parque de Avioso, junto a uma pequena linha de água, 29TNF3271. Paulo Alves, 14-IX-2011, PO-62225.

 

Conyza bilbaoana J. Remy

Os exemplares identificáveis como Conyza albida Spreng. usando a chave do género Conyza traduzida da Flora Europaea por João do Amaral Franco (Nova Flora de Portugal II, 1984), apresentam duas combinações distintas de caracteres. Alguns exemplares possuem um indumento de pelos patentes nas folhas e nas inflorescências; outros, porém, são glabros, com cílios nas margens e na nervura média inferior das folhas. O primeiro tipo morfológico corresponde a C. sumatrensis (Retz.) E. H. Walker (sin. C. albida). O segundo tipo tem sido confundido com C. sumatrensis (Retz.) E.H. Walker ou C. canadensis (L.) Cronq., ou identificado como C. x royana Sennen ou C. x mixta Fouc. & Neyr., dois nothotaxa cujas espécies parentais putativas são, respetivamente, C. sumatrensis e C. canadensis, ou C. bonariensis (L.) Cronq. e C. canadensis. As C. albida de folhas ciliadas correspondem, na realidade, a um neófito em expansão na Europa, a C. bilbaoana J. Remy, planta entretanto citada para o norte de Espanha por C. Aedo et al. (Bol. Cien. Nat. R.I.DE.A. 47: 7-52, 2001) e por F. Verloove & E. Sánchez Gullón (Acta Botanica Malacitana 33: 147-167, 2008). A C. bilbaoana é comum no Noroeste de Portugal Continental. Distingue-se com facilidade no estado vegetativo das demais Coniza naturalizadas em Portugal, pelas folhas da roseta basal que, na maioria das vezes, possuem um recorte pronunciado. Ocorre em áreas sujeitas a perturbação, podendo colonizar zonas húmidas.

VILA NOVA DE GAIA: Nas proximidades do Hotel Solverde, junto à estrada, 29TNF3042. Armando Machado e Paulo Alves, 20-VII-2004, PO-61549.

As espécies do Conyza presentes em Portugal podem, então, ser segregadas do seguinte modo:

1. Brácteas involucrais e folhas densamente peludas.          2

1. Brácteas involucrais glabras (sem pelos) ou quase. Folhas com cílios apenas na margem e na nervura central.        3

2. Capítulos abertos com 8-15 mm de diâmetro      C. bonariensis

2. Capítulos abertos com 4-8 mm de diâmetro.      C. sumatrensis

3. Capítulos com flores liguladas brancas bem visiveis. Brácteas involucrais amarelo claras na parte interna.              C. canadensis

3. Capítulos sem flores liguladas bem visiveis. Brácteas involucrais cor de laranja ou avermelhadas na parte interna.              C. bilbaoana